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O GRITO

November 10, 2010

 

Vitor odeia dirigir na mesma proporção que adora tomar cerveja. Nunca teve saco pra entender sobre carro, sempre achou o assunto coisa de gente imbecil. Pode passar uma Ferrari do seu lado que ele não vai ver diferença nenhuma para um Gol por exemplo.

 

Carros nunca foi o assunto preferido de Vitor, isto sempre foi um fato, porém existe algo que ele adora fazer enquanto está dirigindo. Vitor grita. O carro em alta velocidade, passando por ruas quase desertas, com os vidros fechados ele grita para não ser ouvido. Ninguém consegue ouvi-lo, mas ele grita com toda a força que tem nos pulmões, um grito alto, grosso e vazio, sem interlocutor nenhum.

 

O grito diz em alto e bom som que Vitor não é uma pessoa vazia, ele não é a pessoa que tenta demonstrar para as pessoas, diz que aquela casca vazia que anda pelas ruas com as suas feições não é ele, é outra pessoa. O grito é o próprio Vitor tentando sair, amarrado no fundo de um poço, preso com grilhões no fundo do oceano. Se alguém ouvisse o grito teria entendido na hora, saberia o que ele queria dizer tão claro como uma manhã de verão.

 

“Sou um refém do destino”

 

“Me tire daqui”

 

“Quero sumir”

 

Nada é dito no grito que não para nunca dentro do carro, os ouvidos doem, mas a garganta continua tentando desesperadamente expressar o que o cérebro não deixa. Vitor, o cara controlado, que acredita que pode comandar tudo o que acontece ao seu redor. Tudo não passa de uma equação matemática. Por isso que bebe tanto? Precisa de uma válvula de escape pra perder o controle de vez em quando? Precisa que tudo seja como um programa de computador?

 

“Para o Inferno!” diz o grito “Não aguento isso”

 

Vitor dirige pensando se existe alguém que saiba realmente quem ele é, que saiba que para ele tanto faz as coisas que acontecem no mundo porque todo mundo vai morrer mesmo. Fatalista. Pessimista. Vitor.

 

A garganta fraqueja. Gosto de sangue. A voz fica rouca. O grito cessa.

 

Vitor volta a ser a mesma pessoa de antes, controlado, pessimista, fatalista, acreditando que a cerveja ainda vai salvá-lo e lá no fundo outra pessoa continua gritando por socorro.

 

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