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CONDENAÇÃO

December 23, 2010

 

Lembro-me de uma vez quando meu tio veio com meu primo para Campinas, lembro que ele tinha um carrão e eu e meu primo íamos brincando no porta-malas. Passamos em uma loja de brinquedos e ele pediu para escolhermos algum boneco. Ele escolheu o Luke Skywalker e eu peguei o Darth Vader, ficamos brincando o resto do dia com os novos bonecos.

 

Ele era assim, pegava o personagem principal, o Jedi, o cara bonzinho, eu era o contrário, sempre ficava com os vilões, com os filhos das putas desalmados, o lado negro da força. Ele era a luz da vida de todos, eu não chegava nem aos pés dele, não tinha coragem de subir até o topo da antena, sempre perdia dele no videogame (não importava o jogo), sempre jogou futebol melhor que eu, fazia manobras no skate, pulava da sacada até o jardim enquanto eu tinha que usar a escada.

 

Não é justo, era pra mim estar naquele caixão, tudo iria se encaixar como uma luva, as pessoas iam entender melhor, afinal era eu que lutava contra uma depressão de anos, era eu o louco da família, era eu que não tinha muito a perder. Sem imaginar ele salvou a minha vida, sem pensar no que estava fazendo ele deixou tudo comigo, responsabilidades, família, tudo! Era eu que ia fazer isso com ele e não o contrário.

 

Olhando ele deitado no caixão é quase como se eu não conseguisse sentir nada, é quase como se o nevoeiro que infestava o ar durante a manhã tivesse me engolido e me transportado para uma realidade paralela como em Além da Imaginação. Tento colocar a culpa no maldito nevoeiro e grito pra voltar pra minha realidade de origem, mas me lembro que nessa série, na maioria das vezes, o protagonista se ferrava, então creio que estou preso aqui pra sempre.

 

Vou esperar minha vida inteira para sair daqui e num piscar de olhos meu mundo vai ser o mesmo de novo e então poderei dar um abraço nele, ele vai ser o mesmo, sem o cavanhaque (porque até o cavanhaque do Spock da realidade alternativa ele tava usando no caixão), mais velho, ganhando de mim no videogame em uma festa de família. Eu vou ser o primo irresponsável, bêbado, escritor e vagabundo de sempre e vamos conversar sobre os velhos tempos.

 

Porque não consigo parar de pensar que era pra ser eu naquele caixão? Porque não consigo parar de pensar que se eu tivesse coragem pra fazer o que eu tinha que fazer há três anos atrás ele não estaria ali? Porque a porra dos Smashing Pumpkins não tocaram 1979?

 

Agora não adianta chorar pelo leite derramado, ele me condenou a ficar vivo.

 

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