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VÁRIAS VIDAS

January 3, 2011

 

Ultimamente as coisas andam estranhas, escrevo sobre as mesmas coisas, pareço uma vitrola quebrada. Todo momento da vida da gente é uma etapa, nenhum livro termina se as coisas continuam as mesmas. A vida vem em blocos, cada bloco é um livro, cada livro uma fase ou uma vida diferente. Achamos a vida curta, mas a verdade é que vivemos várias vidas em uma.

 

Temos a Infância, que é a vida que dura mais, depois que saímos da infância são vidas diferentes sucessivamente, a maioria das pessoas consegue levar isso numa boa, eu não, viver várias vidas em curtos períodos de tempo é um fardo difícil demais para mim. Sempre que morremos, ou seja, quando chegamos em uma fase final da nossa vida é um trauma muito grande, sou uma pessoa que não aceita a novidade com facilidade, principalmente devido a minha depressão. As coisas estão calmas, tranquilas e "PÁ!", como uma cacetada tudo muda, dor, sofrimentos se misturam com a felicidade e a novidade, porém eu não sou a melhor pessoa para viver várias vidas, deve ser por isso que escrevo sobre elas, pra tentar entender, pra buscar algum significado nesse monte de vidas que se misturam em uma só.

 

Essas novas vidas, ou essas passagens podem acontecer das mais variadas formas, podem ocorrer devido a morte de alguém querido, alguma separação, alguma briga ou até mesmo uma mudança de casa ou de emprego.

 

“Tudo Morre” já dizia o Garganta Profunda. Quanta verdade! Ele só não sabia que tudo morre mais de uma vez.

 

Tive um sonho em que o mundo antigamente era habitado por pedras, quando elas iam morrer faziam uma suruba, subiam uma nas outras e "PUF!", eis que surgiram as pirâmides, grandes monumentos de surubas de tempos remotos. Pesquisadores ficam quebrando a cabeça pra entender essas coisas todas enquanto a vida passa pra todos.

 

Tenho medo de envelhecer, de esquecer quem eu sou ou quem eu fui, tenho medo de esquecer todas as minhas vidas, todas as pessoas importantes ou não. Tenho medo de olhar pra trás e ver que nenhuma vida foi interessante. Tenho medo de contar verdades quando divago, verdades sobre mim que só eu ou pouquíssimas pessoas sabem.

 

Michael Stipe canta uma música enquanto eu como um salgadinho de pimenta com um copo de Run. Não era o tipo de coisa que eu faria na minha vida passada, talvez em nenhuma delas, como mudei tanto sem perceber?

 

Tenho 30 anos e uma filha de 13, algumas pessoas me olham andando no shopping com ela com um ar de reprovação, como se eu fosse algum pedófilo ou algo do tipo. Quando as coisas apertam, quando o mundo parece que vai desabar na minha cabeça é nela que eu penso, na vida antes dessa onde tudo era perfeito, quando éramos uma família. E o que me tornei hoje? Um bêbado desgraçado que nem viu ela crescer e que vai correndo atrás dela ao primeiro sinal de que estou caindo no fundo do poço, cada vez mais para o fundo.

 

Então ficamos assim, vivendo uma vida nova, sem poder voltar para nenhuma das vidas antigas e com medo da vida que vai vir a seguir.

 

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