April 22, 2019

October 9, 2018

August 22, 2018

August 6, 2018

Please reload

Posts Recentes

EU GOSTO DA EUROPA E A EUROPA GOSTA DE MIM

June 30, 2019

1/9
Please reload

Posts Em Destaque

BRINQUEDO DE ADULTO

May 7, 2011

 

Vitor pega uma faca na cozinha, é a mais nova, lustrada e afiada faca que ele possui. Ele olha o cabo de madeira, os botões metálicos que o prendem a lamina e observa os contornos da madeira, sente a textura do que foi uma árvore um dia. A lâmina reflete a luz da sala, porém seu reflexo não é muito nítido. Ele encosta o dedo na lâmina e sente o dedo gelar, pressiona e sente o dedo cortar, o sangue escorre na horizontal até a palma da sua mão.

 

Ele olha para o apartamento bagunçado, todo bagunçado, parece que a única coisa que continua intacta na sua vida é o aquário, mas mesmo assim percebe que todas as plantas estão praticamente mortas. Decide que na sua próxima folga vai limpar ele todinho. Volta a olhar para a faca e lembra-se do trecho de um conto que lera.

 

“Eu tracei uma cicatriz, pétalas peroladas, em minha testa. Sim, marquei minha mágoa e minha fortaleza no rosto, desprezando um lugar entre os 99%, aqueles perfeitos e sem marcas desde o nascimento.”

 

“Se eu fizer um corte no meio do peito” – divaga Vitor – “Será que a dor física supera a dor mental?”

 

A faca é tensionada no peitoral, a carne vai rasgando, uma música do Atari Teenage Riot está tocando no último volume, seu grito é camuflado, se mescla a música, o sangue escorre e pinga no azulejo do banheiro. Ele nunca havia percebido que o piso não é branco e sim de uma cor amarelada.

 

“Como eu não poderia? Como poderia das as costas para os intencionalmente deformados, os atrofiados de propósito, pessoas de brinquedo que nos ensinaram a criar como animais domésticos?”

 

Então vem o alívio, por uma fração de segundos toda a dor vai embora, nenhuma preocupação, nenhuma solidão, nenhuma dor, nenhum desconforto. A ferida vai começando a arder bem aos poucos, quase imperceptível, como uma coceira que não nos incomoda. Quando a dor atinge seu ápice tudo retorna com mais força, a preocupação, a solidão, a dor e o desconforto.

 

Mas aqueles segundos são o que importa, aquele tempo ridiculamente pequeno em que tudo se dissipa, se esvai como fumaça entre os dedos. Aqueles segundos já fazem a vida valer a pena, Vitor pensava que nunca iria se sentir assim, livre de tudo e por alguns segundos alcançou o que buscava.

 

A faca ainda está em sua mão, que aperta firme o cabo de madeira, a lâmina esta vermelha e o sangue pinga até formar uma poça de sangue que se mistura ao tapete vermelho. Vitor se olha no espelho, não gosta do que vê e o quebra com um murro.

 

Mais sete anos de azar.

 

---------------------------------------------------------------

 

Texto em Itálico retirado do conto Eu Fui Uma Engenheira Genética Adolescente de Denise Angela Shawl

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Siga

I'm busy working on my blog posts. Watch this space!

Please reload

Procurar por tags