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DIVAGAÇÕES SOBRE A SAUDADE

September 25, 2012

 

Sinto saudades de tanta coisa. Acabo de pensar em um prato de arroz, feijão e um bife a milanesa. Faz tanto tempo que não como isso. Se eu soubesse que ia morrer aqui no espaço teria comido arroz, feijão e bife a milanesa durante o mês passado inteiro. É estranho como as coisas mais fúteis e que parecem insignificantes é o que nos faz mais falta.

 

Lembro-me de quando ganhei um pote de mel da Silvana, estava escrito “Para sarar logo da gripe para me dar beijinhos”. Tenho saudades de ganhar presentinhos carinhosos de alguém, a vida de um astronauta às vezes é fria e metódica demais. Ganhei presentes que na hora achei bobos e sem sentidos, porém são desses presentes que sinto saudades. Gostaria de estar com aquele pote de mel agora, só para segurar ele e ler a mensagem no lugar do rótulo quantas vezes eu conseguisse.

 

Sinto saudades de ser eu mesmo, carreguei tanta coisa inútil nos meus ombros por tanto tempo. Devia ter me livrado desse peso todo há muito tempo atrás. Vagando neste espaço completamente sozinho, percebo agora que vou aos poucos me livrando de coisas que não precisava ter guardado. Nunca estive tão leve, mesmo estando dentro de uma roupa que pesa aproximadamente cento e trinta quilos.

 

Cada assunto que passa pela minha cabeça nesses momentos finais são como exorcismos instantâneos.

 

Voltando a pensar em saudade, dizem que não existe tradução para esta palavra em outras línguas. Bobagem. Saudade é sentir falta e ponto, tem gente que gosta de complicar.

 

Eu sinto falta do seu toque, sinto falta do seu sorriso, sinto falta do seu olhar, sinto falta do seu bafo pela manhã, sinto falta do seu entusiasmo com a vida, sinto falta do seu cabelo e sinto falta dos seus presentinhos.

 

Sinto falta de sentir medo, perdi o medo das coisas há muito tempo atrás, não estou com medo porque vou morrer. Sinto tristeza pelo fim da minha vida, tão precocemente, com tantos planos ainda por vir, mas medo?

 

O medo foi-se embora com você, de mãos dadas, por culpa minha e de mais ninguém. Tenho saudade do medo.

 

Tenho saudade de acampar, quase nunca fiz isso, foram tão poucas vezes. Gostaria de ter acampado mais, olhado o sol refletir em algum lago ou em um campo florido entre as árvores. Sentir a terra entre meus dedos e poder ouvir o som tão diferente do barulho da cidade. Sinto saudade de uma tarde de um domingo qualquer onde pesquei com o meu pai, foi a primeira e a última vez que pesquei com ele. Levamos os peixes para casa e morreram todos sem oxigênio em um balde grande. Eu era pequeno e chorei porque os peixes morreram.

 

Tenho saudade da comida da minha mãe, já faz tantos séculos que saí debaixo de suas asas que o desfrute de seus quitutes foi tornando-se cada vez mais escasso com o passar do tempo.

 

Meu irmão, sinto saudade da revista pornográfica que escondíamos no teto de um armário velho na casa de nossos avós.

 

Percebo agora que sinto saudade de muita coisa, mas no fundo de uma só...

 

Sinto saudade de estar vivo.

 

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