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INVERNO

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Eu sempre me pego na mesma situação: a paixão platônica. Talvez eu seja a maior discípula do filósofo grego. Apesar do termo ter sido inspirado na teoria das ideias de Platão, não foi o próprio que cunhou o conceito de amor platônico. O termo foi utilizado pela primeira vez por William Davenant no livro Platonic Lovers (Amores Platônicos, 1636), onde o poeta inglês se refere ao amor como é retratado em um Simpósio de Platão, onde o filósofo afirma que o amor é a raiz de todas as virtudes e de verdade.

 

Para Platão, o amor era algo essencialmente puro e desprovido de paixões, ao passo em que estas são essencialmente cegas, materiais, efêmeras e falsas. O amor platônico, não se fundamenta num interesse, e sim na virtude. Platão criou também a teoria do mundo das ideias, onde tudo era perfeito e que no mundo real tudo era uma cópia imperfeita desse mundo das ideias. Portanto amor platônico, ou qualquer coisa platônica, se refere a algo que seja perfeito, mas que não existe no mundo real, apenas no mundo das ideias.

 

Um amor platônico é como se vestir no inverno, dentro de casa você está cheio de blusas e aquecido, mas ao sair na rua o vento frio te lembra que esse monte de blusas é apenas um mecanismo de proteção para não sentir frio. Com o amor platônico acontece algo parecido: você pensa na pessoa amada e se sente aquecido, com o coração feliz, sente a maior alegria de todas porque está amando alguém, mas logo que você percebe que não existe nada além de sua imaginação, volta o frio, a tristeza, o medo. E percebe que esse mecanismo de proteção não serve para evitar o sofrimento.

 

Para mim, esses amores platônicos existiram desde minha adolescência. Talvez seja porque sou tímida demais para confessar minhas paixões, ou talvez seja porque o fato de eu ser lésbica sempre me deixou com o pé atrás para dizer as mulheres sobre minha paixão. Assim me vejo mais uma vez presa a um sentimento que eu não tenho coragem de confessar.

 

Minha primeira paixão platônica foi no ensino médio. Eu gostava de uma menina que era dois anos mais velha e que jogava futebol comigo e ela tinha uma paixonite pelo nosso treinador. Imaginava várias aventuras para nós duas. Viajando, ficando velhinhas juntas, tendo filhos, brigando. Eu me imaginava trabalhando como médica em um hospital e ela seria professora universitária. Mas claro que nada disso aconteceu. Nem um beijo. Ela nunca ficou sabendo o que eu sentia.

 

A gente pensa que ao ganharmos idade seremos mais maduros, mais serenos, mais práticos, mas as coisas nunca acontecem como esperamos. Então preciso vencer as armadilhas que coloco em meu caminho e tentar ser mais corajosa, talvez. Eu já tive tantos relacionamentos falidos que é difícil acreditar que qualquer outro dará certo, por isso fico no mundo das ideias, assim tudo acontece do meu jeito e só depende de mim. Mas, pensando melhor, esteja aí o erro. Não depende apenas de mim e eu não consigo controlar as coisas. Muito menos os sentimentos. E do nada me vi apaixonada por uma pessoa que se aproximou de mim e que não me vê da mesma maneira. Ou vê e não demonstra? Não sei. E só saberei se conversar com ela, certo? Pois é, e essa conversa vai continuar no mundo das ideias.

 

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* Ao som da música “Inverno”, de Adriana Calcanhotto

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