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CAVALGADA

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Parou subitamente, as perninhas sugadas e repuxadas demais para se manterem firmes.

 

- Nossa água cabô!

 

Caiu sentado ao lado do cantil que ainda rodopiava, as mãos sujas na cabeça suada e uma fome invisível comendo as bochechas. Ela continuou, sua única acompanhante, arrastada por si mesma, os cabelos pretos desgrenhados de um tom ruivo-sol-latejante. Repetiu o mantra da caminhada.

 

- Não para! Farta pouco! Vamo!

 

O menino voltou-se para ela, sobrancelhas erguidas como acusações sem contra-argumentos. Ousou.

 

- Pra onde é que nóis vai?

 

Esperou o eco na estrada seca. Não veio. Sentiu-se ganhando terreno.

 

- Pra onde? O que é que tem daqui... cem... quilômetro?

 

E desculpou-se através da justificativa:

 

- Num tem nada, mãe...

 

E relaxou os músculos. Era a desistência. Da posição em que estava, os joelhos segurando os braços, via uma estrada que era mais um horizonte marrom e embaçado de poeira espiralada em queda. Não sabia onde terminava. A alegria, ali, ajoelhada ao lado dele, parecia ser deixar-se imóvel, imaginar o fim mais docemente, sem cansaço. Seria também despedida, certeza de que ela ou ele, mais cedo ou mais tarde, cansariam-se tanto da caminhada que acabariam por cansar-se um do outro.

 

Continuou sentado. Sentado de dar dó, sentadinho de fazer no chão sombra pequena, quase a sombra de um galho velho. E enquanto enxergava a si mesmo ali, sombra escura, disforme, borrão do sol, de repente viu sua sombra virar nuvem, aumentar o tamanho. Encobrir-se pela sombra de útero, pela sombra da mãe. Tomou um empurrão.

 

- Vai, Tingo, levanta! Tá doido? Nóis dois precisa que ocê caminhe! Moleque!

 

Mas não demorou, é claro. O amor não se atrasa – quando existe. Se não existe, que não o esperem – não virá. Mas, se há, ele não falta. O amor é bem nutrido, gordo, estende-se feliz como rede protetora. Para todos – os azes velozes, os motoqueiros do globo, os palhaços tristes, as bailarinas doces – para todos ele se demonstra. E os corajosos pulam, assim, para o vazio. Mergulham assim os inocentes, os ditos tolos, livremente para a sorte.

 

Na queda (inevitável) o encontram: fatalista, no último minuto, vestido de festa, baile decorado, mãe que aguarda, pai distante, cabelo preso, beijo de despedida, uma vela que se apaga ou voto declamado perante os amigos. O amor vem feito arrebentação. Marítimo. Oceano de presença sobre um deserto de cabeças secas.  

 

- Pega na minha mão, vem. Nóis consegue, Tinguinho. Vem com a mãe.

 

Suas mãos deitaram-se sobre as deles – duas lixas. Seus olhos, carinhosos e pacientes.

 

Algo revirou no estômago do moleque – que não era comida, que não havia. Estava chorando. Estava chorando, primeiramente, porque havia tomado a consciência de que ela estava ali, consolando-o da maneira que sabia. Depois, começou a chorar mais porque percebia que estava chorando e ela estava ali, ao lado, assistindo sua fraqueza. Era o que ele entendia, de repente.

 

A mãe sorriu mansamente:

 

- Vai aparecê um bom lugar, ocê vai vê. Comida boa, cama boa. Uma véia boa pra acolher nóis dois – ela tentou e conseguiu fazê-lo rir. Potrinho agora ria. Ria, mas via, no castanho desvanecido dos olhos da égua, naqueles grandes cílios de égua, nas veias saltadas sobre a pelagem marrom, um algo lamentável, desesperado, conhecido. Soube então com firmeza o seu destino. Embora menino, era já cabra macho. Soube o seu destino naquele instante e levantou-se. Estava pronto. Somente o entristecia saber que aquele seria também o destino da mãe.

 

- Não vou enterrar ocê aqui, bichinho! – ela gritou, por fim. E a égua bonita saiu em galope, a crina levantada, os cascos cintilando. Saiu como quem tem certeza: a cria prudente segue atrás da fila. E potrinho seguiu. Sacudiu a poeira, quase feliz. Quase um crente:

 

- Farta pouco, eu sei. Farta pouco.

 

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Ilustração: Gustavo Henrique

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