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ERVAS-DANINHAS

February 8, 2018

 

Não fez muita diferença quando o relógio não despertou. O homem acordou como de um sonho bom: serenamente. Estava atrasado para o trabalho, o que fazia diferença porque não iria trabalhar. Foi quando mexeu a cabeça que sentiu: toda uma dor no corpo, um enjôo, um coração de repente descompassado – e lembrou. Que não estava só. Ali estava ela, novamente. Um sonho bom – ou pesadelo que devora ao abrir dos olhos. A sensação era estranha, porém. Uma calmaria de aceitação. Coisa alguma fazia diferença: o homem não se sentia um corpo, nem dentro do próprio corpo, nem uma alma, nem uma emoção, nem um trabalhador. Acordou assim: sem paralelos. Estava atrasado, disso sabia. Estava moído também, as pernas e quadris gritavam.

 

Ao seu lado uma menina dormia profundamente. Bonita. A carne jovem. Ninguém diria sua idade (registrada). Ninguém ousaria. Ainda sonolento, o homem roçou a palma da mão na pele da moça, na penugem castanha sobre a pele da moça, e ali, naquele momento, pareceu que a verdade de um mar aberto por um messias enfim havia se revelado: estiveram sempre assim: ambos dormiam. Ela desacordada para o mundo, sedenta por qualquer coisa brilhante. Ele, um velho, exausto, pronto para entregar o que não tinha para ela, que desejava qualquer coisa. Nunca satisfeita, nunca realmente satisfeita, nunca completa.

 

Dez minutos depois arrancava-a porta fora, machucada e quase nua. 

 

- Seu doente!, ela gritava.

 

- Não volte. Para seu bem. Não volte – ele apenas repetia, tranquilamente.

 

Era uma calma tensa na sua fala. Uma certeza fria e amoral do que faria caso a menina retornasse, daquela maneira sempre ladra e lânguida, como se viesse apenas para atormentá-lo, ciente da sua fraqueza, e quisesse destruí-lo. Que fosse o fim – seria melhor. Ele não calculava problemas com o fim. Se ela viesse outra vez, seria o fim. Ser tragado também para a desgraça, como consequência, pouco importaria.

 

- O que está fazendo?

 

- Estou atendendo, Romero! Cadê você? Está atrasado! O patrão já perguntou!

 

- Não vou trabalhar.

 

- Está doente?, o amigo do turno da manhã espantou-se, ao telefone.

 

- Não.

 

- Aconteceu alguma coisa?

 

- Não. O que está fazendo?

 

- Ora, Romero! Estou brincando aqui! Ora, ora! Estou atendendo desde ás seis da manhã, o que você também deveria estar fazendo! Nem trem roda sem gente operando o trem, sabia?

 

- Hum.

 

- Hum o quê, Romero?

 

- Gente também. É sempre conduzida. Passa sozinha, apita, chama, pensa que está sozinha. Mas você disse bem; tem sempre um condutor no trem.

 

- Vai tomar banho! Está doido? Que horas vai vir pro trabalho?

 

- Eu não vou. Eu não vou, entendeu, colega? – respondeu, didaticamente. Sem qualquer dramaticidade, sem nenhuma arrogância ou precipitação. Era uma onda que deitando-se sobre a praia cantarolando: eu não vou. Eu estou para dentro de mim, incógnito. Estou pensando aqui. E eu não vou.

 

- E o que vai fazer?

 

- Vou arar meu quintal. Podar folhas. Acredita que descobri na árvore da frente – a macieira, recorda-se? Descobri metade da raiz apodrecida. Queria que não morresse, justo ela, tão antiga e grande. Esperava até frutos, mas isto foi antes; agora não sei o que fazer.

 

- Vai passar o dia assim? E amanhã? Vai alegar o quê? Saúde?

 

- Não vou trabalhar mais.

 

- Como?

 

Desligou. Tirou os chinelos. Devolveu o cinto preto ao armário, que já havia cumprido sua eficiência de couro duro sobre o couro macio da menina. Nu, brincou com uma perna, com outra perna; passou as mãos sobre os pêlos das coxas. Foi para o quintal, onde despiu-se tranquilamente e sentou-se para observar a grama. Uma formiga que subia por seu dedão do pé esquerdo. Depois lançou os olhos sobre a piscina. Não estava tão próxima, mas esforçou-se: cuspiu. E a saliva fez aquele trepidante círculo de água. Levantou-se a observar. Urinou.  Cheirou as mãos. Não conseguia decifrar o que era conveniente, o que não era. E sentia-se morno; nada daquilo lhe parecia frio ou surpreendente. No quarto, procurando uma razão, escolheu (enquanto dançava) a roupa mais ridícula que poderia encontrar – a roupa que havia usado no dia que pareceu-lhe o dia mais ridículo da sua vida. Um terno de linho puro, azul marinho, mítico, feito de paredes descascadas cheias de fatalismo: o terno usado para casar, o mesmo terno usado para desquitar. Perante o juiz, o mesmo terno usado para assinar o termo de separação de bens e guarda de crianças. Que ilusão!, pensou, enquanto rodopiava. A esposa, afinal, jamais foi realmente sua. Os filhos – fato sabido há menos tempo por um colega da companhia de trens – também não eram seus.

 

Armado de tesourão e enxada, rumou para a macieira à frente da casa. Pronto para eliminar do seu Éden a árvore que apodrecia. Foi quando viu o vizinho velho da casa amarela de esquina. Velho apático e ranzinza que, como de costume, vinha pela calçada com seu cachorro gordo, forte, que mais parecia um cavalo puro sangue bem nutrido, ameaçador. 

 

O velho não tinha – nunca teve – ares de bom dia. Era daquela espécie de humanos que compartilham a rabugice com que vêem a própria vida como forma de interação.

 

- Veja você – gritou o velho -, se não saio para o passeio, esse aqui caga na casa inteira.

 

Aproximou-se da macieira e do homem. O cachorro farejava tudo. Que cagasse, então, no jardim de Adão.

 

- Você gostaria que eu estivesse aqui?

 

- Como?, o velho estancou. O homem insistiu:

 

- Você gostaria que eu estivesse aqui?

 

Silêncio. Perguntou assim, sem erguer uma sobrancelha. O velho se refez de uma careta, retornando para sua pose superior. Riu e deu de ombros. Era uma resposta, afinal. Sansão, o cachorro gordo, queria rosnar, mas aquietou-se. Preferia observar o início de um diálogo tenso humano a vibrar no ar. Sabia que assim demonstrava também uma pose superior igual ao dono. Não mostrava os dentes, somente farejava.

 

O velho retomou a boa vizinhança. Fingiu preocupação.

 

- Se precisa de ajuda, meu caro...

 

- Sim.

 

- Pois diga...

 

- Quero enterrar você no meu quintal. Mas, veja você, não nascerá uma erva daninha. E a sua orgânica naturalmente podre, bem, não serviria como adubo.

 

Sansão enfim rosnou – ameaçadoramente. Expectativa e excitação. O vizinho refez-se rapidamente, acostumado que devia estar de ser um encosto inútil no mundo a propagar mal estar. Refez-se e conseguiu sorrir, apertando os olhos altivamente enquanto erguia o canto direito da boca. Falou para o ar, enquanto afastava-se:

 

- Marido traído. Não julgo.

 

Continuou sua caminhada, pesadamente, desacordado. Dali não cairia um fruto. Quando estava distante alguns metros, acelerou o passo: “anda, Sansão, anda”. Sansão teimava em querer a briga, arfava, rosnava, dilatava o peito contra a corrente. Sem sucesso, sem movimento. Quando já eram os dois quase uma miragem, o homem suspirou:

 

- Patéticos.

 

Largou a enxada. Jogou, por sobre o galho mais alto, alguns metros de corda que havia retirado do porta-malas do carro. “Até Deus me parece inofensivo agora.”

 

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Ilustração: Gustavo Henrique

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