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Eu sabia que essa conversa, mais dia menos dia, chegaria. Meus filhos estavam crescendo, perambulando por aí, na escola, na rua, de casa de vizinho em casa de vizinho, conhecendo gente, conversando a toda. 

 

Foi o mais velho, com oito anos, que veio com a pergunta, num dia qualquer, antes de dormir – e eu não estava nem um pouco preparada.

 

Ele tinha trazido um livro que pegou na escola. Trouxe o livro para a cama.

 

– Vamos ler esse? Olha, tem um arco-íris na capa.

 

Ele é apaixonado por arco-íris e coisas coloridas. Olhei o livro. “A Arca de Noé” – para crianças.

 

Lembrei na hora de quando, com a mesma idade do meu menino, peguei para ler o primeiro livro da coleção “Bíblia Ilustrada para Crianças”, que ficava numa estante de casa. Eu adorava ler e aquela coleção cheia de desenhos lindos e com cara de enciclopédia me despertou a curiosidade.

 

– Bom... é verdade, tem um arco-íris. Eu já conheço essa história.

 

Suspirei fundo e abri o livro. Independentemente do conteúdo, já dava para ver que o livro era ruim – a gente percebe pela capa, sim. A gente vê que, quando a ilustração não recebeu a devida importância, é altamente provável que o texto também não.

 

Comecei a ler e, claro, Deus era o principal personagem da história. Não havia nenhuma ilustração dele, mas tudo aconteceu por vontade dele. Onipresente, embora ausente.

 

Certamente, meu filho já tinha ouvido falar de Deus, mas acabou perguntando quem era aquele de quem o livro falava o tempo todo. Ai, droga.

 

– Hum, você não sabe? – perguntei, tentando desconversar.

 

– Ãhn... não.

 

Culpa da mãe, é claro.

 

Mas lá foi a mãe, tentar explicar:

 

– Olha, Deus é... bem, as pessoas acreditam que existe um ser que fez o mundo, o céu, as pessoas... uns acham que é como um velhinho que cuida da gente, outros acham que é como um fantasma ou espírito ou entidade, outros acham que é uma energia que existe em todos os lugares ao mesmo tempo, e que ele vê tudo, ouve tudo, sabe tudo, e criou tudo o que existe, tem gente que chama de Jeová ou Alá e as pessoas rezam para pedir coisas a ele e...

 

Claro que a essa altura meu filho já tentava fugir da conversa. Ele não tem nenhuma paciência para explicações muito longas, principalmente quando são confusas.

 

Tentei resumir assim, achando que encerraria o assunto:

 

– Bom, tem gente que acredita que ele existe, tem gente que não.  Entendeu?

 

– Você acredita?

 

Gelei. Dos pés à cabeça, juro.

 

Quando eu era criança e li a “Bíblia Ilustrada para Crianças” eu fiquei horrorizada – “Como pode, Deus criou tudo mas ao mesmo tempo quer que os bichinhos sejam sacrificados em seu nome? E como assim, só um casal de cada bicho na Arca? E o resto, ele vai matar todos? Eles não têm culpa!”.

 

E além do mais, ninguém respondia às minhas questões. Minha mãe falou para mim uma vez que eu podia pedir o que quisesse para Deus, e à noite passei meia hora rezando e pedindo para acordar com um par de asas de verdade, porque eu queria voar. Na manhã seguinte, foi a maior decepção.

 

Bem, eu era uma criança e foi tudo isso que pensei.

 

E de repente, antes que eu pudesse articular uma resposta, meu pai, minha avó, minha sogra, meus ancestrais, meus vizinhos, um padre e mais um monte de gente apareceu dentro da minha cabeça, todo mundo com cara de bronca, me olhando com os olhos arregalados e prontos pra me queimarem na fogueira e me jogarem pedras, a depender da minha resposta: “Veja lá o que vai responder, mulher!” – gritaram todos!

 

Mas minha vontade de ser sempre honesta com meus filhos – ao menos no que diz respeito a mim – venceu.

 

– Bom, não... – admito que foi um “não” meio mole. – Eu não acredito muito, não.

 

– Por quê?

 

Caramba, ele tinha que perguntar por quê? E agora? Eu ia falar o que? Que o mundo é horrível demais e que se tivesse um Deus regendo o Universo, eu acharia que ele é na verdade muito mau? Que acho improvável, de acordo com as últimas evidências científicas? Que acho que é tudo invenção da cabeça das pessoas mesmo, assim como o Papai Noel ou a Fada do Dente? Que as pessoas precisam acreditar nisso porque tem medo da morte? Que um deus que mata todo mundo num dilúvio me parece um ditador sanguinário?

 

Eu não podia falar nada disso para uma criança.

 

Por um segundo, me encontrei naquele limiar que as pessoas atravessam quando precisam optar entre uma verdade nua e crua e uma verdade vestida e assada. Enfim, a grande pergunta, aquela que não quer calar nunca: viver uma agradável e confortadora ilusão ou viver uma difícil e verdadeira realidade?

 

Que pílula daria eu, uma mera mortal, ao meu próprio filho?

 

– Não sei, filho. Eu só não acredito – respondi, derrotada.

 

– Eu acredito! – disse ele, sorrindo.

 

– Ah é?

 

– Acredito. E eu acho Ele muito legal!

 

Olha: me senti aliviada. Não precisei oferecer nenhuma pílula – ele escolheu por si só. E me roubou mais um sorriso, o meu menino.

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