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O MASSACRE

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A vida é um trem que vai chegar a algum destino que você não tem a mínima ideia qual seja, onde pessoas entram e saem ao longo da viagem sem que você tenha controle algum sobre isto. Você fica ali, sentado, sem controle nenhum da situação.

 

– Bem, eu desço aqui! – diz meu avô se levantando – Você vai se dar bem sozinho.

 

– Mas... – e antes que eu possa protestar ele já está em pé na estação e o trem já está em movimento. Eu nunca vou esquecer-me daqueles olhos me fitando, dizendo tanta coisa que eu não entendia naquela época da viagem. Ainda posso vê-los se fechar meus olhos e me concentrar.

 

Percebo que por mais que novas pessoas entrem no veículo ferroviário, ele tende cada vez mais a ficar mais vazio. Fico imaginando como será o final da viagem, será que não vai sobrar ninguém?

 

Tento lembrar-me da pintura dos bancos: como era no começo da viagem? A memória falha, mas consigo recordar que ela não era velha e descascada como é agora. Era mais colorida e feliz, muito diferente desse sentimento de desamparo que reflete agora do vermelho desbotado cheio de vincos na madeira velha. Percebo também que as pessoas do trem ficam cada vez mais distantes de mim conforme a viagem prossegue, preferindo muitas vezes outros vagões para evitar minha presença, sejam elas pessoas que já estão no trem faz tempo, como também as pessoas que entram agora.

 

Meu primo me deu um abraço naquela noite, estava tão focado naquela garota que me sorria que nem percebi que era uma despedida. Ele desceu em uma estação enquanto eu dormia, sem que eu pudesse me despedir. O trem nunca volta e eu sabia que nunca mais ia vê-lo... a garota que me sorria me consolou por um tempo, a dor de despedidas foi se tornando comum, e ter ela do meu lado facilitava as coisas.

 

Então ela resolveu descer, e eu só pude ver a figura dela ficando cada vez menor enquanto o trem se afastava. E só conseguia cantarolar “Mas este trem não para, este trem não para”... “Eu me desfaço em pedaços no chão”.

 

Não pense que eu não pensei em descer, ouve algumas tentativas, confesso, mas daí não saberia qual seria o destino da coisa, não é mesmo?

 

A viagem é dura, a solidão vai se tornando uma companheira e observar as pessoas saindo transforma seu coração em uma espécie de escultura de granito. Você vê seu reflexo no vidro se tornando um maracujá enrugado e não se reconhece mais. Chega um momento que só quer que tudo acabe rápido.

 

Então você se lembra daquele senhor que entrou rapidamente no trem e cochichou no seu ouvido antes de sair: “A velhice não é uma batalha, a velhice é um massacre!”. O senhor foi-se sem que pudesse indagar mais nada – Philip, volte aqui! – você gritou, mas já era tarde. Agora você já entende aquelas palavras. Olha para suas mãos velhas segurando o encosto do banco da frente e tenta entender o que foi que aconteceu.

 

Onde foi que errei?

 

O que foi que aconteceu?

 

Como as coisas puderam sair desse jeito?

 

E quando você acha que vai ter as respostas o trem finalmente chega ao seu destino, e aí é que as coisas se tornam realmente engraçadas, porque durante todo este tempo o destino era uma enorme parede de concreto.

 

O trem se choca em alta velocidade, seu corpo é feito em pedaços e não dá nem tempo de gargalhar. Você já era.

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