A Carta

Por Carolina Mantovani / Mar 2018

Eu não lembrava de ter ficado tão nervosa em minha vida. Nem em meu casamento. Nem quando eu enfrentei a banca examinadora na defesa de minha tese. Mas eu sempre fiquei nervosa quando aquele olhar se encontrava com o meu.

O interfone tocou, o porteiro me avisou que ela tinha chegado.

- Peça a ela para subir, senhor Messias.

O coração bateu mais forte. Acredito que aqueles cinco minutos em que ela esperou pelo elevador, entrou e parou em meu andar, foram os mais longos desse ano, tanto para mim quanto para ela. E eu tinha passado por muita coisa nesse ano.

Tudo começou quando, ao mudar de apartamento depois do meu divórcio, eu encontrei uma caixa de sapatos dentro de uma outra caixa que continha roupas, jogos e cartas de baralho. Não me recordava de tê-la guardado, tampouco recordava de seu conteúdo. Dentro havia um maço de cartas atado por uma fita de cetim vermelha. Eu não acreditava! Era impossível que fossem as cartas que troquei por alguns anos com minha querida amiga Sarah.

Ao pegar, trêmula, aquelas cartas, tudo voltou instantaneamente em minha mente. A primeira vez que trocamos algumas palavras, depois os encontros, as risadas. Um sentimento de ternura tomou conta de meu coração que estava devastado depois de tantos anos sem entender o que poderia ter acontecido de errado em meu casamento. Ali eu soube. Naquele momento eu relembrei, eu reacendi o que havia apagado por tanto tempo.

Abri a primeira carta e li: “Faz tanto tempo que estou aqui e ainda não me acostumei a não ter minha amiga do meu lado para compartilhar as caminhadas, saborear o café, dar risada das besteiras que falo”. Sim, fazia muito tempo. Talvez uns cinco anos que não nos falávamos? Apesar de termos pegado o começo da era virtual, gostávamos das trocas de cartas. A espera pelo correio, sentar aconchegadamente na poltrona com uma xícara de café na mão e abrir delicadamente o envelope para não rasgar seu conteúdo, ler com calma cada letra escrita à mão e que foi demandado um tempo precioso, o tempo em que ela esteve ali, apenas pensando no que escreveria para mim e no que eu responderia a ela depois de ler suas palavras escritas em letra de forma, arredondadas e carinhosas.

Sarah e eu nos conhecemos numa cafeteria perto da Universidade onde estudávamos. Aquela cafeteria era frequentada por muitos estudantes que procuravam um local calmo para estudar e fazer os trabalhos fora do ambiente acadêmico. Eu estava sentada numa mesa larga, igual a essas de biblioteca onde várias pessoas podem dividir o mesmo espaço e tinha apenas um lugar vago e foi ali que ela sentou-se. Ficamos uns trinta minutos focadas em nossos estudos até que ela viu na pilha de textos que eu carregava, um livro que eu estava tentando ler há algumas semanas.

- Uau! – disse ela pegando o livro – Eu não imaginava que alguém ainda se interessava em Proust nos dias de hoje. – terminou sorrindo.

- Ah, estou tentando ler, mas com os textos da faculdade fica difícil, afinal não é uma leitura qualquer. – respondi, surpresa e sem graça.

Aquele livro estava me dando um trabalhão. Eu não conseguia ler mais do que duas ou três páginas, era final de semestre e não estava conseguindo focar em muita coisa.

- Realmente não é! Mas leia até o final. Espero que não se arrependa. – sorriu. – Me chamo Sarah e você?

- Meu nome é Paula. – sorri de volta.

Depois que nos apresentamos, voltamos a nossos estudos e logo precisei ir embora. Só nos vimos novamente no último dia de aula quando fui devolver uns livros na biblioteca e ela também estava lá. Conversamos enquanto caminhávamos pelo campus e fomos tomar um café, as horas passaram tão rápido que, ao darmos conta, já escurecia. Despedimos-nos e trocamos telefones. Adorávamos a companhia uma da outra e fazíamos muitos passeios juntas. Mas conversar escutando música e tomar café era uma paixão em comum.

 Como pode um maço de papéis guardados há anos trazer tantas lembranças e sentimentos? Levantei-me de onde estava sentada, segurando aquelas cartas, relendo-as e fui preparar o café. O dia não tinha começado muito bem, estava deprimida, triste, mas aquele achado me tirou dessa morosidade. Me deu um gás para terminar de arrumar o apartamento.

O apartamento, assim como minha vida, estava vazio. Tinha uma poltrona no canto, livros e discos pelo chão, louça acumulando na pia. Eu sempre fui uma pessoa muito organizada, mas os últimos meses estavam sendo muito pesado, me deixando bagunçada. Eu dormia pouco, não conseguia me concentrar no trabalho. Tinha noites que eu ficava em pé, na janela, olhando o movimento do calçadão em frente ao meu novo apartamento. Observava as pessoas caminhando, correndo, conversando, sorrindo e pensando que nunca mais me encaixaria naquele universo.

As noites eram doloridas. Às vezes ficava horas escutando um disco que colocava na vitrola, lendo ou observando o movimento pela janela. Eu sentia um vazio que eu não conseguia explicar, nem entender e vinha uma sensação de choro e de inércia. Foi numa dessas noites vazias, com uma taça de vinho na mão, que comecei a abrir algumas caixas solitárias que estavam no canto da sala e encontrei as cartas guardadas.

"Hoje saí para dar uma volta pelo Sena, o dia estava frio e lembrei dos dias frios em que sentávamos na sala, jogando conversa fora, escutando aqueles vinis da Bethânia, Caetano, Chico e Gal. Você é a culpada por eu gostar dessas músicas, sempre fui mais fã de jazz do que música brasileira. Lembra de quando te dei os álbuns da Aretha, do Miles e da Nina Simone? Era seu aniversário..."

Ler essas cartas era como reviver o começo de minha fase adulta. Sarah fazia medicina e ficávamos alguns dias sem nos ver, mas quando nos encontrávamos, as horas voavam e sempre faltava o que conversar quando nos despedíamos. Após pouco mais de um ano de amizade, Sarah se formou e foi se especializar em Paris, onde a família tinha um apartamento e assim começamos a trocar cartas. Me formei logo depois e fui morar no Rio de Janeiro, onde passei em um concurso e pude começar meu mestrado, para logo emendar com a tese de doutorado. Os anos passavam devagar e sempre com a esperança de receber uma nova carta.

As cartas dela demoravam muito para chegar ao Brasil, assim como minhas respostas a ela. Eu era avessa em ficar usando e-mail, mídias sociais, não confio muito nesse mundo virtual, mas o mundo real também não estava ajudando. E o mundo real levou minha melhor amiga para longe, o que me fez sofrer muito. Em sua última carta, ela me contou coisas que eu não esperava. Aliás, eu desconfiava, mas nunca imaginei que fossem reais os sentimentos dela por mim. Eu não quis enfrentar isso na época e a carta chegara tarde demais. Tarde demais porque só li a carta quando voltei da lua de mel. Eu gostava muito do meu marido, mas não sabia lidar com aqueles sentimentos, nunca tinha gostado de mulher antes e talvez tenha sido isso que a fez não se declarar antes. Hoje eu sei que não fui apaixonada por ele como eu era apaixonada por ela.

"Eu nem sei como começar essa carta. Estive pensando muito nas últimas semanas. Sua última carta chegou para despedaçar meu coração. Não deveria estar falando assim, mas não sei mais como esconder isso. Dói pensar em você, no Brasil, e eu aqui, muito longe para escutar sua voz, sua risada, olhar em seus olhos. No tempo em que fomos amigas não cresceu apenas um carinho de amiga, mas me apaixonei por você. Não sei como começou, não sei se você sentia o mesmo, mas não quis arriscar perder sua amizade. Não queria te contar isso por carta, nem por telefone, nem e-mail. Mas tinha que contar, precisava contar, porque jamais temos certeza das coisas sem falar e também porque preciso seguir minha vida, assim como você seguiu com a sua. Eu te amo e quem ama deixa o outro ser feliz, mesmo que sua felicidade não dependa de mim, mas saber que você vai casar, me despertou para o que eu sentia e me fez acreditar que deveria te contar. Essa não será uma carta como as outras, será a última, nem sei se você vai me responder, espero que não. Ou espero que sim. Mas não vou esperar por uma resposta. Nós fazemos escolhas na vida e eu escolhi vir para Paris. Parte meu coração saber que eu poderia ter te contado sobre isso anos atrás e não tive coragem. Mas quero, de verdade, que você seja feliz! Você sempre estará em meu coração! Te amo! Um beijo..."

Ao terminar de reler essa última carta, meu olhos estavam marejados, não conseguia evitar o choro. Eu gostava dela. Sempre soube disso, mas não quis enfrentar, por medo, pelo o que as pessoas falariam. Eu sabia que ela gostava de mulheres. Sempre soube, ela nunca falava de homens e eu a tinha visto conversando mais intimamente com uma ou outra mulher na faculdade, mas ela jamais me confessou, apesar de nossa amizade. Talvez ela estivesse esperando que eu tomasse a iniciativa, não sei.

Encontrar aquelas cartas me deu um desejo enorme de entrar em contato com ela. Eu tinha feito uma busca por ela na internet uns meses antes do meu casamento acabar. Pode parecer estranho mas eu nunca deixei de pensar nela, mas tinha bloqueado todo sentimento que poderia ter sentido por ela. Bloqueei porque não queria encarar a verdade. Peguei o notebook, entrei no Google e digitei o nome dela.

Sarah se tornara uma cirurgiã famosa, estava de volta ao Brasil há pouco mais de um ano e morava no Rio de Janeiro também. Meu peito explodia cada vez que entrava em um link e via uma foto dela, imponente com a roupa típica de cirurgiã, com uma touca na cabeça e braços cruzados e sempre acompanhada de outros cirurgiões. Em nenhum lugar falava de alguma companheira, esposa, namorada. Fiquei imaginando se ela havia me procurado, se ainda guardava lembranças de mim. Fiquei na dúvida se a procurava, mas a vontade de vê-la novamente foi maior que meu medo de ela não se lembrar de mim.

Não encontrei o endereço de onde morava, mas consegui seu e-mail profissional e o endereço do hospital onde trabalhava. Dessa vez escrevi um e-mail e esperei por uma resposta. Precisava lidar com todos esses sentimentos e não sabia como ela lidaria com isso depois de tantos anos.

"Não sei como vai reagir com esse e-mail. Não sei como está sua vida, mas do mesmo jeito que anos atrás você me contou por carta que era apaixonada por mim, devo confessar que eu também era apaixonada por você, mas tinha medo de assumir isso para mim, para você. Eu recebi sua última carta depois que havia volta de lua de mel e não soube como te responder, mas junto com as cartas que trocamos durante anos, encontrei minha resposta a você. Não sei como está sua vida hoje e não quero atrapalhá-la, mas se quiser conversar, me reencontrar, estou por aqui. Eu encontrei as cartas que você me mandou quando estava em Paris e fiquei com uma vontade louca de te mandar notícias, saber notícias suas. E, no meio dessas cartas, encontrei minha resposta para sua última carta. Quero entregá-la pessoalmente.

Um beijo cheio de saudade, Paula."

Qual não foi minha surpresa quando recebi uma ligação e do outro lado a voz, tão familiar, exitante, nervosa. Fiquei sem reação.

- Paula? - ela repetiu.

- Oi... oi Sarah!

- Como você está?

- Estou bem e você?

- Confesso que estou surpresa. Eu li seu e-mail. Nem sei ao certo o que falar.

- Eu também não sei. Como você descobriu meu telefone?

- Eu pedi seu telefone a Clara. Eu tenho conversado com ela há um tempo e ela me passou seu número quando eu disse que voltaria ao Brasil. Mas nunca tive coragem de ligar. Até agora...

Clara é uma amiga, se formou comigo e conversávamos esporadicamente. Ela nunca me disse que conversava ou tinha contato com Sarah.

- Clara nunca me disse que vocês se comunicavam...

- Eu pedi a ela para não falar nada.

- Quem sabe poderíamos nos encontrar e conversar pessoalmente? - arrisquei em falar.

- ...

O silêncio do outro lado me gelou a espinha. Escutei vozes ao fundo e uma respiração profunda.

- Paulinha, preciso atender um paciente. Posso te ligar mais tarde?

- Claro.

Nos despedimos e acreditei que não falaria com ela novamente e nem a veria. À noite, estava sentada no chão da minha sala, com meus vinis espalhados para organizá-los, uma taça de vinho e escutando Etta James, querendo que o telefone tocasse, mas sem resposta. Eu aprendi a apreciar um bom jazz com ela, assim como a introduzi na música brasileira. Os primeiros acordes de At Last estavam começando quando o telefone tocou e ela começou a se desculpar.

- Eu precisava muito atender um paciente. Ele entraria em cirurgia e eu precisava conversar com a família.

- Não precisa se desculpar. Na verdade... - respirei e criei coragem - Na verdade, achei que você nem fosse me telefonar.

Um riso sem graça me aliviou e ela começou a contar que quase enfartou quando recebeu meu e-mail e que, em um primeiro momento, não soube como reagir. Contou-me que desde que voltou da Europa, queria entrar em contato comigo, mas não tinha coragem, que tentou me encontrar no facebook mas sem sucesso.

- Você está escutando Etta James?

- Sim. - respondi com um sorriso de canto. Ela se lembrava, claro.

- Quanto a sua pergunta, que tal um café?

- Amanhã?

- E ter a oportunidade de você se arrepender? Pensei no café agora.

 

Esses cinco minutos em que fiquei encarando a porta e que, finalmente, a campainha tocou me trazendo de volta para a realidade foram eternos. Abri a porta e ela estava ali, com uma garrafa de vinho na mão e um sorriso maroto.

- Não íamos tomar um café?

- Mudei de ideia.

- Entre, entre. Desculpa, mas ainda não tenho um sofá, apenas aquela poltrona, então... - apontei para algumas almofadas que estavam no chão.

Ela entrou, olhou ao redor. No chão os discos se amontoavam ao lado do mesmo aparelho de som de anos atrás, um abajur num canto, livros, nenhuma televisão. Na verdade a maioria das coisas tinha ficado com meu ex-marido e a nova namorada dele. Queria começar do zero.

 

- Não me importo em sentar no chão. - ela relutou, mas confessou - De vez em quando, ao chegar  cansada em casa, sento-me no chão e fecho os olhos... e lembro de quando fazíamos isso. Lembra?

- Sim, claro... - apesar de tantos anos, parecia que tínhamos nos visto ontem. Ela estava usando jeans, camiseta branca com um suéter cinza e uma mochila. Colocou a mochila na poltrona perto da janela e sentou-se no chão, revirando os discos. Ela entregou-me um álbum da Gal Costa e sorriu. Troquei o álbum e dei uma taça de vinho a ela. Sentei-me a seu lado e nossos olhares se encontraram e era tão intenso que só consegui perguntar:

- Então... o que você acha que acontece agora?

 

E ela respondeu:

 

- Tudo o que pode acontecer depois...

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