O Suplício de Brinquedo

Por Luiz Carioca / Mai 2018

Os gritos ecoavam nas paredes. O Super-Homem agonizava. Seus membros, amarrados aos cavalos estavam prestes a serem arrancados. Os elásticos que uniam as pernas ao tronco já estavam expostos. Sua capa já havia sido cortada por tesouras cegas, prolongando ainda mais seu sofrimento. O suplício já durava horas, mas o coronel sabia que Paulo só voltaria à noite.

Enquanto isso, os outros super-heróis se encolhiam no canto, bem debaixo da escrivaninha, assistindo a tudo paralisados pelo medo. Sabiam que seus poderes não seriam páreos para os soldados que estavam em maior número. Somente no Forte Apache havia mais de cem deles. Há muito tempo eles já dominavam aquele território. Eles estavam nestas terras muito antes da chegada dos super-heróis, desde os primórdios daquele quarto. Os heróis eram meros recém-chegados, novatos que não conheciam muito bem as leis do local. E foi isso que colocou o Super-Homem nessa situação terrível, ou melhor, mortal. Ele não se curvou às leis dos soldados. Seu castigo então, foi o suplício. Para o coronel, somente a tortura poderia regenerar a alma desse herege rebelde.

 

Com uma faca sem ponta, tiravam lentamente os parafusos das costas do Super-Homem. O buraco do parafuso foi grosseiramente alargado pela força do metal, pela ponta cega. Dava para ver a mancha branca do plástico profundamente arranhado, marcas deixadas pelo metal da faca nas costas dele. Os soldados estavam decididos a retirar as pilhas do Super-Homem, sem elas, ele ficaria mudo. Seria como se cortassem sua língua insolente.

O Super-Homem resistia bravamente, seus músculos de aço não se romperam facilmente. Foram precisos mais cavalos. Agora eram dois cavalos amarrados a cada membro. Foi então que as pernas e os braços começaram a se soltar do tronco. O relinchar dos oito cavalos se fundiam aos gritos de “perdão” do Super-Homem. Ele havia se entregado, mas os soldados achavam que era tarde demais, sua alma não tinha salvação, seu corpo precisava pagar pelos pecados. Um sacerdote se aproximou com um símbolo sagrado no exato momento em que as pilhas caíram no chão. Agora ele estava mudo, com as poucas forças que sobraram, se debatia sem o menor sucesso contra a tração dos cavalos.

Aos poucos o Super-Homem foi perdendo a sua força e os movimentos. Um juiz se aproximou para analisá-lo. Ele gritou: “AINDA ESTÁ VIVO!”. Novas chibatadas foram dadas nos cavalos. Foram as derradeiras, os cavalos dispararam arrastando os braços e as pernas do Super-Homem, agora, totalmente destruído, desmembrado e imóvel.

Nesse momento, os bonecos ouviram passos no corredor. Paulo estava se aproximando. Chegou em casa antes do previsto e estava indo direto para o quarto. O exército se mobilizou e rapidamente os soldados voltaram para suas posições. Os super-heróis, ainda estáticos de medo, permaneceram no mesmo lugar, mudos, a Mulher Maravilha chorava e soluçava, tentava se conter e fazer silêncio, mas sem muito sucesso.

 

Paulo abriu a porta e não acreditou em seus olhos, esfregava-os. Ele viu o juiz, o sacerdote e o coronel juntos ao corpo mutilado do Super-Homem. Ao lado deles, as pilhas do tipo AAA espalhadas pelo tapete. Os cavalos ainda estavam amarrados aos braços e pernas arrancadas. Viu nitidamente seus brinquedos separados: de um lado um batalhão de soldados, índios e cowboys, de outro os super-heróis. Paulo percebeu que a arrumação do seu quarto se tornou um problema de gente grande. Não era mais possível tratar tudo com a irresponsabilidade de uma criança. Era preciso tomar o controle da situação. Ele pegou três caixas de papelão de diferentes tamanhos, anotou na lateral de cada uma delas quais bonecos ficariam ali guardados, separando cowboys, soldados e super-heróis. O Super-Homem, desmembrado e inutilizado foi para o lixo. Paulo ainda nomeou uma caixa para carrinhos, bolinhas e outros brinquedos avulsos. Agora, estavam todos encaixotados, cada qual com o seu espaço definido. A partir desse dia a paz voltou a reinar entre os brinquedos, mas a brincadeira nunca mais foi a mesma.

 

Luiz Carioca publica suas poesias em:

https://www.instagram.com/obomselvagem/

© 2017 by Me Leve Para Longe

  • Twitter Classic
  • Facebook Classic