Liguei para contar as coisas para Aldo.

 

           

 

- Encontrei o Foice!

           

- Sério? – disse ele surpreso – achei que tinha morrido.

           

- Não – eu disse – acho que foi ele que delatou aquela reunião.

           

Aldo ficou obcecado em achá-lo durante algum tempo, frequentava o restaurante onde o vira almoçar, andava com fotos que ele tinha da época em que andávamos juntos, mas nunca mais o vimos, deve ter fugido do estado. Acho que se Aldo o encontrasse acabaria fazendo uma besteira, então foi melhor assim.

           

Algum tempo depois ficamos sabendo que André, aquele meu amigo que preferiu ficar em casa, morreu depois de não reagir a um assalto, fez tudo o que o bandido pediu, entregou dinheiro, carro, relógio e levou um tiro na cabeça. A violência que existia na minha juventude era nossa dirigida a ditadura ou da ditadura dirigida a nós, nas décadas seguintes ao fim da ditadura a violência foi se tornando pior, não era mais dirigida, atingia todo mundo, ninguém mais está salvo de levar um tiro ao andar pela rua. No funeral eu encontrei a velha turma de novo, Aldo, José Michel e até Betina apareceu. Ela disse que não conhecia o André, mas sabia que íamos estar todos ali.

           

- Eu também não o conhecia – disse José Michel – mas seu irmão foi um dos nossos, vim prestar homenagem.

           

O irmão de André havia sido um dos figurões de grupos estudantis da época, nunca o tinha visto, mas Aldo e José Michel o conheciam bem da época em que se escondiam em outros estados.

           

- Vamos tomar umas pelos velhos tempos – disse Aldo que adorava uma dose de Velho Barreiro.

           

Ficamos no bar conversando, até Betina que não foi bem vista por ninguém durante algum tempo estava entrosada, parece que tudo o que havia acontecido no passado havia ficado lá, era como se tivesse sido outra vida, como se fosse um conto de fadas moderno que nem nós lembrávamos direito. Foi a última vez que nos reunimos.

           

Hoje, Aldo e José Michel nem se cumprimentam, brigaram. José Michel estava desviando dinheiro público, nada nunca foi provado, foi expulso do partido, teve a candidatura cassada, comprou sitio, casa, imóveis no exterior, ficou rico.

           

- Dormimos no chão juntos – dizia Aldo inconformado em sua última visita a minha casa – ele passou pelo mesmo que eu, você lembra como chegamos...

           

- Sim, me lembro – eu disse me lembrando daqueles anos difíceis e dos dois voltando cheios de hematomas e escoriações.

           

- Que filho da puta!

           

- Tem certeza que ele fez isso?

           

- Só não foi preso por que fez um acordo político com algum figurão – ele bateu com as mãos na mesa, expressão de raiva, derrota, traição. A mesma traição de companheiros que deduravam as reuniões para os militares – um companheiro, um amigo, um irmão. Sonhávamos o mesmo sonho no passado.

           

- Onde é que erramos? – eu pergunto.

           

Silêncio.

           

José Michel nem sequer me procurou, acho que não foi por vergonha, foi porque sabia que estava errado, sabia que ele nunca mais conseguiria olhas nos meus olhos ou nos de Aldo. Era humilhante demais, não para ele, mas para nós.

           

Mas porque José Michel lutava? Para garantir o seu futuro? Só o dele? Sempre que penso nisso não consigo entender, pois não era essa a impressão que ele passava. “Vocês eram jovens e idealistas” dizia minha mulher sobre o assunto “e daí que ele roubou um pouquinho? Todo mundo faz isso na política mesmo”.

           

Fiz campanha ao lado de Aldo nas eleições de 2006, onde ele concorria para deputado federal, ganhou com uma boa margem de votos. Confio nele, confiava em José Michel também, mesmo assim, ainda confio em Aldo.

           

- Porque vai sair domingo de manhã para fazer campanha no meio de um monte de pobre? – dizia minha mulher irritada com minha ausência durante a campanha.

           

- Saio para defender um bom candidato – eu dizia baixo para não acordar meu filho – e não é um bando de pobre. É o povo. Meu povo e seu povo.

           

Ela fazia uma careta e eu saía. Devia ter levado meu filho comigo nessas eleições, devia ter educado ele melhor, devia ter sido presente na formação política e social. Como meus pais nunca me ajudaram nisso, achei que ele saberia discernir as coisas.

           

Criamos uma geração de débeis mentais.

           

- Me empresta o carro – diz meu filho hoje, já com 23 anos – preciso ir pegar umas gatinhas.

           

- Está em cima da mesa – eu digo olhando para ele, ele pega as chaves e vai embora.

           

Ele nunca imagina o que eu penso dele, um idiota, não entende o próprio mundo onde vive. Paguei escolas caras, investi em faculdade, escolas de inglês, espanhol, viagens para o exterior. Para que? O que ele aprendeu esse tempo todo nesses lugares? Deve usar drogas, dirige bêbado, só quer saber de pegar uma mulher diferente da outra, é mimado, não arranja um trabalho e olha que estou descrevendo a maioria dos jovens de classe média alta.

           

Culturas, ideologias, ensinamentos, ideais, política, educação, igualdade, bons costumes, tradições, religiões, direitos, constituição, justiça, liberdade, expressão, fraternidade. Pegamos tudo isso e jogamos na privada, apertamos a descarga e fomos embora.

           

Meu filho, na ultima eleição, pediu uma cola com os candidatos para a minha esposa. Ela lhe entregou.

           

- O que é isso? – eu perguntei.

           

- Os candidatos pra eu votar – disse ele guardando o papel no bolso.

           

- Em quem vai votar? – ele me disse o seu candidato para presidente e governador.

           

- E senador? Deputado estadual e federal?

           

- Não sei – ele disse saindo – a mãe anotou uns aqui pra mim.

           

Ridículo. Eu olho para minha esposa com ar de reprovação e ela nem percebe. “Foi para isso que lutei?” eu pergunto em silêncio, mas nenhuma resposta me vem à mente.

           

- Vou pegar o carro emprestado – me diz meu filho de novo em outra semana.

           

- Não – eu digo.

           

Ele me olha atônito, depois sorri achando que é uma brincadeira, vai até o molho de chaves e pega.

           

- Eu disse que não – minha voz é mais alta e irritada.

Por Que Lutamos

Por Gustavo Campello
Conto publicado na antologia Da Palavra à Literatura (Universidade FUMEC, 2011)

Era o ano de 1979, um suor frio descia pela minha nuca, meu coração estava acelerado, ia ser o meu primeiro trabalho para o grupo, vestia preto para me misturar com a noite, a lata de spray gelada fazia minha mão pulsar como um coração.

 

Corri e parei em frente a um muro, ele estava todo branco, foi então que escrevi “APOIO A GREVE DE FOME”, já ia correr pra sair dali, mas num ímpeto de coragem resolvi escrever mais ao lado, não via ninguém vindo pela rua “ANISTIA PARA TODOS”. Voltei para casa, pulei a janela do meu quarto e dormi o sono mais agitado que tive em toda a minha vida, pensava se tivesse sido pego, pensava no transtorno que seria para meus pais e pensava principalmente nas torturas. Tinha medo. Todos tinham medo, vivíamos com medo e por causa dele a maioria se calava.

 

Eu tinha meus vinte anos, trabalhava em uma loja que vendia materiais elétricos a contragosto do meu pai, que queria que eu cursasse direito como ele. Cresci em uma família de classe média alta, meu pai era um advogado com certo prestígio, cursei boas escolas, mas na hora de escolher uma profissão fiquei paralisado, não sabia o que queria. Meus amigos fizeram suas escolhas. André havia se casado cedo após terminar o curso de geografia, trabalhava em uma escola e achava melhor não tomar posição quanto à situação do país, queria viver seu casamento sem problemas com os militares. Aldo era agora vereador depois do curso de economia e apoiava os militares como fachada, a noite participava de reuniões secretas que visavam minar a ditadura que o país vivia, foi ele que havia me convidado para um grupo subversivo, foi ele que me deu uma lata de spray naquela noite.

 

No dia seguinte ele estava na frente de casa me esperando quando saí para ir trabalhar.

           

- Como foi?

           

- Não viu?

           

- Lógico que vi! – disse ele me abraçando – Você é praticamente um Picasso!

           

Foi o começo, era o primeiro ano do governo Figueiredo, a inflação estava em alta e os militares não enxergavam a queda se aproximando.

           

Fazia serviços pequenos, pichava muro, jogava pedra em carros de pessoas aliadas a ditadura, queimei uma árvore em frente a casa de um tenente certa vez. Tinha que ir fazendo essas coisas para que outros companheiros acreditassem em mim, que eu virasse uma figura que inspirasse confiança, só então eles poderiam me colocar para fazer os serviços pesados. Não que o que eu fizesse fosse inútil, longe disso, mas eram sempre os novatos que faziam.

           

- Preciso de um favor – disse um sujeito que ninguém sabia o nome, era um dos grandões com o outro cara, chamavam-no de Foice – confio em você.

           

- Pode contar comigo – eu disse, estava entusiasmado, iria passar de nível.

           

- Pra qualquer coisa? – ele perguntou, estava sério e senti a garganta secar.

           

- Qualquer coisa!

           

- Conhece o tenente Couto? – ele me entregou um documento, continha uma foto 3X4 de um sujeito moreno, de bigode e com o cabelo negro penteado pro lado.

           

- Não – respondi olhando para a foto – é este da foto?

           

- Ele mesmo – ele tirou uma arma da calça – o endereço está aí no documento.

           

- O que eu faço?

           

- Mata o sujeito – ele me estendeu a arma e fiquei ali parado por alguns segundos que pareceram anos, um tremor percorreu todo o meu corpo, aquela arma parecia que iria queimar minha mão se eu a tocasse, pensei que tinha ido longe de mais, que não dava para voltar atrás e estendi a mão para pegá-la.

           

- Está louco? – era Aldo vindo na direção de nós dois. Foice voltou a colocar a arma dentro da calça – ele não está pronto pra isso, vai ser pego! – estava louco de raiva com a cena que estava presenciando.

           

- Eu posso me cuidar – eu disse tentando parecer adulto. Aldo sempre me protegeu, era só dois anos mais velho, mas sempre teve uma presença paternal.

           

- Não pegue numa arma até que eu autorize ou você está fora – ele disse apontando o dedo para minha cara – Entendeu?

           

- Entendi – eu disse resmungando entre os dentes, achava que estava sendo tratado como criança.

           

Às vezes penso nessa situação e acho que foi um teste, uma prova de que eu estenderia a mão para pegar a arma. Aldo devia estar escondido ali o tempo todo para aparecer no momento exato me impedindo de aceitar o serviço. Aldo nunca comprovou esta minha teoria, mas também nunca negou, só sei que a partir deste dia o pessoal começou a confiar mais em mim.

           

Lutávamos contra um inimigo muito maior, mais forte e poderoso. A esposa de André havia sido presa por suspeita de colaboração com os comunistas, foi torturada, estuprada e solta um mês depois inocentada das acusações. André ficou possesso, estava acabado, mas ainda assim não teve coragem de sair de casa e dar a cara pra bater.

           

Peguei na minha primeira arma naquele ano com a autorização de Aldo, estava pronto. Assaltei banco, sequestrei militar, não matei ou bati em ninguém, mas vi companheiros atirarem no inimigo. Demorou anos até conseguirmos as “Diretas Já!”, demorou anos até conseguirmos uma eleição democrática, demorou anos até terminarmos com a repressão. Custou sangue, amigos e muito mais do que temos noção nos dias de hoje.

           

Em uma reunião que eu não participei, porque estava pichando em algum muro da cidade, os militares invadiram, prenderam todo mundo. Aldo, meu amigo, não escapou, foi levado pro DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), nome bonito pra prisão. Lá ele foi torturado, bateram com pedaço de pau, queimaram com ferro quente, quebraram-lhe a perna e costelas, mas ele nunca me entregou. Conheceu José Michel lá, ambos dividiram água, comida e o chão frio para dormir com outros tantos detentos, a noite disse que ouvia as mulheres cantando na ala feminina e só então esqueciam o sofrimento, e só então tinham noção do porque lutavam, e só então podiam se dar ao luxo de ter esperança. Esperança de um futuro e de um país sem desigualdade, onde poderíamos sentir orgulho. Era por isso que Aldo lutava, pela esperança.

Saíram do DOPS os dois, quase ao mesmo tempo. Aldo e José Michel, arrebentados. Reunimo-nos, os que sobraram, com a atenção redobrada. Pude finalmente abraçar meu amigo.

           

- O que fizeram com você?

           

- Estou bem, agora estou bem – sempre que perguntado sobre o ocorrido era sempre assim que respondia.

           

- Obrigado – eu disse. Silêncio, pois ambos sabíamos que não havia sido fácil para ele não me entregar.

           

- Tinha horas que eu achei que não ia aguentar – disse ele me abraçando com lágrimas escorrendo do rosto – tinha horas que eu queria que tivessem pegado você.

           

- Tudo bem – eu disse também em lágrimas – eu sei.

 

Nossa amizade cresceu muito a partir daí e mesmo ele estando visado pelos militares, montamos nossa própria milícia. Eu, Aldo, José Michel e Betina, esta última era uma garota um pouco mais nova que eu que conheci em uma passeata de protesto que terminou com mais prisões e nós dois correndo juntos para nos esconder. Tínhamos um relacionamento, mas ele ficava em segundo plano, nunca pensamos em desistir para nos casar ou constituir família. Preferíamos não ter família naquele mundo louco em que vivíamos.

           

Dávamos pequenos golpes em bancos, roubávamos armas e chegou um momento em que nem sabíamos mais quais eram nossos ideais, as coisas ficaram tão confusas que não tínhamos uma meta, um objetivo, apenas íamos contra um governo autoritário que não tinha como estar certo. Íamos na onda, ouvindo Beatles, Roberto Carlos e fumando um baseado de vez em quando para nos sentirmos rebeldes, afinal, éramos jovens.

           

Vi amigos morrerem, amigos irem para o lado do inimigo, e pior ainda, não vi mais amigos. Sumiram. Nunca mais foram encontrados. Marco Antônio Dias Batista foi um deles, um primo, desapareceu muito antes de eu tomar uma atitude, brincávamos juntos quando garotos, mas já há dez anos ninguém tinha noticia, foi morto aos quinze anos. Meu tio passou a vida procurando e morreu sem respostas.

           

Era por isso que lutávamos, lutávamos pela liberdade, lutávamos para que ninguém mais desaparecesse e lutávamos principalmente para que os nossos mortos não fossem esquecidos.

           

- Cadê a Betina? – eu gritava enquanto dirigia o carro desesperado depois de explodir uma bomba em um quartel – Cadê ela?

           

- Não sei porra! – dizia José Michel – ela estava perto da gente e depois sumiu.

           

Ficamos três meses sem ter notícias, ficamos meio sem agir, Aldo e José Michel tiveram que ir pra outro estado pra não serem presos de novo. Alguns vizinhos já desconfiavam de mim, comecei a trabalhar e cursar a faculdade de direito que meu pai tanto insistia pra eu fazer. Na faculdade era cercado por uma elite cega, que preferia não se envolver, preferia aturar a ditadura e fingir que esta os protegia de um comunismo inexistente. “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil” diziam alguns professores hipócritas que conseguiam fazer uma lavagem cerebral na maioria dos alunos, que eram quase todos mais novos que eu, não me fixava, não aceitava aquilo, mas usava a faculdade para me esconder.

Encontrei Betina carregando seus cadernos e atrasada para uma aula de Inglês na mesma faculdade que eu.

           

- Betina!

           

- Olá – disse ela meio desconcertada.

           

- O que houve com você? – eu disse preocupado – procuramos você por toda a parte, não tínhamos seu endereço, o que aconteceu com você aquela noite?

           

- Me embrenhei no mato – contou – achei que vocês iam ser pegos e fugi dali me arrastando.

           

- Porque não nos procurou?

           

- Sabe – disse ela como se estivesse envergonhada ao me ver – estou cansada disso, não aguento mais, vou seguir minha vida.

           

- Então é isso? – eu disse revoltado – depois de tudo, é isso?

           

- Me desculpe – disse ela se afastando.

           

Foi então que percebi que as pessoas estavam cansadas, mas as pessoas que como eu, que se recusavam a parar de lutar estavam se tornando cada vez mais utópicas, mais suicidas, procuravam cada vez mais motivos para sair por aí e levar logo uma bala no peito que fizesse tudo acabar de uma vez.

           

A ditadura finalmente acabou com o governo Figueiredo, elegemos nosso primeiro presidente que morreu antes de tomar a posse, parece que éramos um povo fadado a derrotas e sofrimentos. Formei-me em direito e fui trabalhar com meu pai em uma firma de advogados, as pessoas de lá me olhavam torto, sabiam que eu havia sido um revolucionário enquanto elas aceitavam e concordavam com a ditadura. Uma coisa que me revoltou é que algumas pessoas que haviam se escondido e não tinham feito nada foram chamadas de heróis, um bando de idiotas, falsos. Aldo e José Michel se juntaram a um partido de esquerda e se engajaram na política, o primeiro virou prefeito e o segundo deputado estadual.

           

Casei em 1986, meu filho nasceu no ano seguinte, minha esposa dizia que me entendia como ninguém, mas jamais apoiaria as atitudes que tomei. “Você precisa aceitar o mundo como ele é” diria “tem que casar e ter filhos como um homem adulto”. Mas naquela época jamais pensaria em ter a vida que trilhei pra mim, virei um pai de família, responsável e um sucesso profissional.

             

Depois veio o Collor, depois de tanta luta e tantos mortos. Vergonha. Os jovens foram pra rua com a cara pintada de preto. Era bonito de se ver, olhava aquela nova geração lutando, de forma diferente é verdade, mas lutando. Foi quando fui percebendo que metade daqueles jovens iam a rua porque a mídia falava que eles tinham que ir, a maioria nem sabia porque estavam ali, então foi feio de se ver. Eles lutavam, mas nem sabiam por que o faziam. Nesta época eu olhava pra trás e parecia que tudo havia sido por nada, parecia que nunca iria haver um país com o qual sonhávamos. Eu nunca fui de esquerda, nem de direita, pra mim essas coisas são pura demagogia, sempre fui a favor da liberdade de expressão, mas não dessa liberdade de expressão da mídia de hoje que escarra lixo em cima de todo mundo. Sempre fui a favor de dignidade, mas não a dignidade da elite que prevalece até hoje fazendo com que as diferenças sociais só cresçam em nosso país. Sempre fui a favor da justiça, mas vejo um país com subterfúgios constitucionais que dão privilégios aos criminosos e deixam a população presa em casa com medo. O mesmo medo de antes, o medo nunca morreu, sempre esteve lá.

           

Não fez diferença derrubar a ditadura? Trocamos um medo por outro?

           

Tenho a minha consciência tranquila de que fiz a coisa certa, todas as pichações, todos os roubos, todos os ataques serviram para melhorar o país, mas então onde foi que erramos? O que fizemos no caminho para chegarmos aqui?

           

No final da década de 90, um sujeito com o rosto conhecido sentou-se na mesa da frente em um restaurante, nos entreolhávamos, não sabia de onde eu o conhecia e ele parecia ter a mesma impressão. Então ele se levantou e entregou o dinheiro para o garçom. Sua postura e seus trejeitos foram como uma viagem no tempo e me lembrei dele me entregando os documentos do tenente Couto, pedindo para eu matá-lo.

- Foice? – eu gritei indo atrás dele.

           

- É Renato! – disse ele me olhando com desconfiança.

           

- Sou eu – disse lhe dando um abraço – amigo do Aldo.

           

- Está diferente – disse ele com um alívio – parece magnata!

           

- Achei que o tinham matado!

           

- Não – ele parecia desconcertado em me ver – fiquei escondido.

           

- Achavam que você tinha sido pego na batida daquela reunião... – então tudo fez sentido, foi ele que tinha nos delatado. O Foice. Ninguém podia imaginar, tínhamos tanta confiança nele que nunca nos passou pela cabeça, pensamos durante todo esse tempo que ele havia sido preso, torturado e morto. Ninguém sabia seu verdadeiro nome, no que me diz respeito nem deve ser Renato. Fiquei paralisado, ele percebeu e foi embora, correndo, com medo.

 

- Eu tenho que sair – ele diz pra mim com os olhos vermelhos de desespero e com medo da minha atitude de pai – você não pode fazer isso comigo, você só me ferra, porque não me deu um carro? Todos meus amigos têm carro! Mas o senhor tem que dificultar as coisas pra mim!

           

Dou-lhe um tapa na cara, ele fica mais assustado, me olha sério, cheio de amargura.

           

- Dificultar? – eu digo explodindo em cólera – você acha que eu dificulto pra você? Você não passa de um moleque mimado pela sua mãe, com a sua idade eu já pegava em armas pra lutar por este país, com ideologia política que você nem tem capacidade de entender – minha ira só cresce quando eu me lembro da cola que ele pegou com a mãe para ir votar – eu lutei para que você pudesse ter essa vidinha medíocre, eu lutei para que você pudesse só pensar em beber, ir a festas e pegar uma mulher diferente a cada dia.

           

- Eu não quero saber sobre esse negócio de contra ditadura de novo – ele diz com desdém.

           

- E eu não quero saber se você tem que ir a mais uma festa ficar bêbado com o meu dinheiro – eu disse entrando em casa e indo para o quarto, coloquei algumas roupas em uma mala, joguei no carro enquanto ele estava ainda sentado no chão chorando e entrei no carro – diga para a sua mãe que eu fui embora.

           

Assim terminou o meu casamento e minha vida familiar, olhando para trás, não consigo imaginar porque vivi tanto tempo casado, tanto tempo alienado. Acho que todo mundo que lutou naquela época buscava um motivo, o meu era porque tínhamos um inimigo de carne e osso. É, lutei porque tínhamos um inimigo que dava para atacar. Hoje temos um inimigo invisível, como lutar contra a ignorância, a falta de educação e a geração sem rumo que criamos?

- O que? – ele me olha assustado.

           

- Eu vou usar o carro e sua mãe está usando o dela, foi para a casa da sua avó.

           

- Mas eu marquei com uma mina! – ele diz histérico, quase esperneando, parecendo uma criança.

           

- Vai de ônibus – eu digo me divertindo com a situação.

           

- Você está louco? – é então que eu percebo que criei um moleque mimado que nunca andou de ônibus com 23 anos – quer que eu seja assaltado?

           

Olho para ele com desdém e percebo que não tenho nenhum respeito por ele, percebo meu fracasso como pai e entendo como eu mesmo fui minado pela filosofia barata da minha mulher todos esses anos. Filosofia barata de gente fraca que transformou meu filho em um retardado. Culpa minha, não tiro minha culpa, devia ter percebido o que vinha acontecendo este tempo todo.

           

Ele pega as chaves do carro e sai correndo, vou atrás dele. Ele abre a porta do carro e eu a fecho com um chute.

© 2017 by Me Leve Para Longe

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