Por Gustavo Campello / Nov 2018

Vitor Scaglia 2050

Vitor acordou com um gosto de gim na boca, havia ficado escrevendo até tarde, seu último livro estava pronto, sentia que não iria escrever mais nada depois deste. Sua obra estava completa. Não havia mais ninguém na cama com ele.

Foi até o banheiro e olhou sua cara, estava com mais rugas do que se lembrava de ter ontem. Estava velho. Faltava uma semana para o natal de 2050 – “Quem diria que ia durar tanto” – lembrava-se de Giorgio, fazia uns quarenta anos que tinha morrido naquela data e ainda lembrava-se dele todos os anos – “Merda!” – pensava, apenas uma semana para seu aniversário de setenta anos.

Pensou em acender um cigarro, mas lembrou-se que não fumava mais já fazia trinta anos. O gim tônica da noite anterior foi uma exceção, já não bebia mais como antes também, tomava apenas alguma coisa uma vez por semana, abria um vinho ou um gim tônica. Cerveja já fazia parte do passado. Alimentos orgânicos, cortou o açúcar e a farinha branca... pensando bem, não estava tão mal assim de aparência. Algumas pessoas diziam que tinha cinquenta e cinco anos. Exercícios todos os dias ajudavam a manter o corpo saudável.

“Quem diria, hein!” – pensava olhando para o espelho – “Você realmente entrou na linha, seu velho safado!”

Ouviu alguém gritando.

 

Saiu do banheiro e foi até a cozinha em direção à voz.

 

– Tudo bem aí? – Vitor colocou a cabeça pra dentro do cômodo temendo o pior.

 

– Acordou? – Diana estava ali tentando preparar um café da manhã para ele, mas havia ovos quebrados pelo chão da cozinha – Vi que terminou o livro e não quis te acordar mais cedo, deve estar cansado.

Vitor foi ajudar a limpar a bagunça – Terminei, acho que bebi um pouco demais ontem, como nos velhos tempos – deu-lhe um beijo. Não importava quanto tempo estivesse com ela, nunca era o suficiente, trinta anos ainda era pouco tempo, não se cansava de se perder em seus olhos ou de sentir o seu corpo. Quando ela apareceu com seu sorriso há décadas atrás naquele restaurante de beira de estrada ele sabia que era sua alma gêmea. Ele estava escrevendo seu primeiro livro, “Expedição: Atlântida”, que foi um baita de um livro de estreia.

 

– Você é um velho safado – ela disse olhando para ele com ternura – me deixe terminar seu café da manhã.

 

Ela nunca fazia o café da manhã, ficava sempre a cargo dele, ela estava tendo problemas ali e ele assumiu o controle do fogão sem que ela percebesse. Minutos depois estavam sentados comendo juntos.

 

– Liguei para Bianca, ela vai vir com o marido e as crianças.

 

A festa de setenta anos, ele estava tentando evitar pensar nisso, mas o evento era importante para ela.

 

– E sua filha?

 

– Ela não perderia isso por nada.

 

Ela estava feliz, então ele estava feliz.

 

– Você achou que ficaríamos tanto tempos juntos? – Vitor pensava na sorte de tê-la em sua vida por esses trinta anos, mas ainda achava tempo insuficiente, queria mais trinta, mas sabia que não teria tudo isso.

– Tive certeza que sim assim que bati o olho em você!

– Eu também – ele se lembrou do momento, com Sam ao seu lado enquanto lia Krakatoa do Simon Winchester e fazia anotações para o seu romance. Levantou os olhos e ali estava ela – Minha Mulher-Maravilha! – era um apelido carinhoso que ele a chamava por ter o mesmo nome da heroína dos quadrinhos. Sentiu falta de Sam, era um excelente cachorro, seu melhor companheiro naquela época.

Ela o agarrou ali na cozinha e fizeram um sexo selvagem, como não faziam já há algum tempo, ele ainda dava conta dela muito bem apesar da idade. Ela ainda o excitava como trinta anos atrás. Ele a carregou de volta até a cama, onde ficaram deitados por um tempo.

– Você me escreveu um poema naquela época -  ela lembrou-se.

– Desculpe por isso.

 

Ambos riram.

 

– Porque nunca mais escreveu poemas?

 

– Nunca fui bom com poemas – Vitor ficou intrigado com a pergunta – você andou bisbilhotando meu livro novo?

 

– Não, acha que depois de trinta anos eu iria começar a fazer isto?

 

– Não sei, porque esse papo de poemas agora?

 

– Do que está falando – ela deu um sobressalto, estava assustada e sorrindo – Sr. Vitor Scaglia, o senhor está escrevendo um livro de poesia?

 

Seu sorriso entregou tudo, ele havia conseguido esconder isto dela pelos últimos três anos, mas seu sorriso havia entregado tudo em segundos.

 

– Eu não acredito!

 

– Nem eu – disse ele em tom de desculpa.

 

– Qual o título?

 

– Pássaros mortos.

 

Ela olhou com reprovação – Pássaros mortos? – não gostou do título, esperava algo mais positivo.

 

– Sim, é sobre voar como um pássaro, assim como pudemos fazer indo para vários lugares juntos. É sobre ser livre, como fez eu me sentir com seu amor. É sobre a velocidade, que é como passou o tempo que estive ao seu lado. Sobre sentir o vento, que é como você, tocando meu corpo e fazendo eu me sentir vivo. E é sobre se estatelar e morrer, que é como eu ter que encarar que não tenho toda a eternidade para ter você comigo.

– Quem disse? – ela tinha esta teoria louca de que eles vieram de outro lugar juntos e que iriam para outro lugar juntos também.

– Pode ser que você tenha razão, mas será outra vida, não essa.

 

– Não me importo, tivemos outra vida que pode ter sido tão boa quanto essa...

 

– No Edifício, certo?

 

Ela concordou, emburrada, não gostava quando ele zombava dela.

 

– Onde Duendes Mecânicos controlavam a gente, né?

 

Ela ia mudar de assunto, mas percebeu que ele falava sério desta vez.

 

– Sonhei com isto hoje – ele disse sério – e foi bem real.

 

– O Deus-Fungo? – ela perguntou receosa.

 

– Ele não nos pegou aqui e não vai nos pegar pra onde vamos.

 

Ela o abraçou e ficaram assim por horas neste dia. Ela tremia quando pensava que podia perdê-lo em breve.

Este mundo já estava condenado, o Deus-Fungo já havia adentrado demais nele, as pessoas agiam cada vez mais de forma mecânica, apesar de muitas pessoas ainda lutarem contra isso, mas era uma luta impossível, um trabalho de formiguinha. A televisão, o sistema político, a apatia da população com a fome, tudo só piorava. Os celulares eram Duendes Mecânicos aprimorados.

Tiveram o natal naquele ano, reuniram a família como não faziam há cinco anos. Vitor morreu antes do réveillon, sentiu o coração falhar, ela estava ao seu lado.

– Você foi tudo o que eu pedi na vida – ela teve tempo de dizer a ele.

 

– Eu vou te achar de novo – ele balbuciou, passou os dedos pelo seu rosto – e não vou te largar nunca mais.

 

– Você é o melhor de mim – ela disse, mas ele já não estava mais ali para escutar, e ela chorou como há muito tempo não chorava.

 

Fechou os olhos, sentiu a escuridão, mas logo conseguiu ver uma estação de trem ao longe onde seu velho amigo, o Maquinista, acenava para ele.

© 2017 by Me Leve Para Longe

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