RICARDO PONTES



Eu comecei a série de crônicas Páginas Rasgadas com uma crônica para lembrar alguns personagens que marcaram minha vida no centro da cidade de Campinas, nada mais justo que eu retome hoje para falar do Ricardo. Eu praticamente não o conheci, mas se você nunca o viu e vive na cidade, com certeza estava frequentando os rolês errados. Eu trabalhei com a Camila, namorada dele, lembro que quando ela começou a namorar com ele eu pensei que ali estava um cara de sorte, mas com o tempo fui percebendo que ela também era uma mulher de sorte. Ela estava sempre esbanjando felicidade e o sorriso no rosto que estampava a relação dos dois era o mais autêntico que já vi na vida.

“Ah!” - vão dizer alguns – “Mas nas redes sociais tudo são flores!”

Então eu vou responder que além de vocês estarem frequentando os rolês errados, também nunca os viram pessoalmente. A última vez que eu os vi pessoalmente foi no dia 26 de agosto de 2019, no mundo pré-pandemia, eu tinha acabado de voltar pro Brasil e fui em um festival na Estação Cultura. Pensei em ir falar com eles, mas deixei quieto porque meu cérebro como sempre me boicotou dizendo – “Vai parecer aqueles stalker de Instagram, ela nem deve lembrar de você do trabalho, você está com a barba grande agora” – e foi só uma das oportunidades perdidas de conhecer melhor o Ricardo. Mas só de olhar o casal dava aquele calor no coração, aquela esperança de que aquele papo de conto de fadas realmente existe, que não é só coisa de filme.

No dia que o Ricardo foi internado com Covid eu mandei mensagem pra ela preocupado, mas tive certeza que tudo ia ficar bem, afinal a vida real não pode ser um livro do Hemingway, certo? Errado!

Hoje, no dia 15 de abril de 2021 um cara apaixonado, que adorava bicicletas e de tirar fotografias foi uma das 3.560 vítimas do dia de uma doença que vem devastando o mundo, uma das mais de 365 mil mortes até agora no país, uma das quase três milhões de mortes no mundo… e a que mais devastou meu coração. O pior é saber que ele também foi vítima do descaso de um governo genocida, de um presidente assassino.

Depois de ver tantas homenagens achei que ele merecia uma crônica aqui, mesmo porque só sei me expressar através da arte da literatura e ele era um grande fã da arte em geral. Acho que o mais importante de tudo isso é que ele nunca seja esquecido. Até aqui, na minha opinião e na de muitos, este momento foi a ladeira mais baixa dessa pandemia.

Voa, Ricardo.

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