TIO ARTHUR



Era o ano de 1967 e David havia completado vinte anos, não sabia que rumo seguir na vida, só tinha a certeza que não queria herdar a loja da família que era tocada por seu tio Arthur.


- Qual o problema em ser como seu tio Arthur? - perguntaria sua avó controladora. O filho era o exemplo de homem perfeito para ela.


Ele lembra de quando era garoto, seu tio devia ter uns trinta e dois anos quando fugiu apaixonado por um rabo de saia chamado Sally. Abandonou tudo, loja, mãe e… mais nada. A loja e a mãe era tudo o que o tio Arthur tinha até então e continua sendo tudo o que ele tem hoje.


- Não é verdade! - diria sua avó defendendo o filho na conversa imaginária que passava pela cabeça de David – seu tio não tem só a loja e a mim.


- Ah, é? - David dava um sorriso sarcástico da cara da avó - e o que mais ele tem?


- Seu hobby.


Verdade, tio Arthur tinha o hobby de ler histórias em quadrinhos. Wham! e Smash! eram suas publicações preferidas, o dono da revistaria de Brixton sempre separava os exemplares que chegavam para Arthur.


Se David fosse ser como o tio, preferia ser aquele tio que sumiu quando ele era pequeno atrás do traseiro de Sally.


- Aquela vagabunda! - diria a avó.


- Mamãe, não fale assim na mente do menino – agora era a vez de sua mãe, Peggy, entrar na conversa imaginária.


O único que continuava em silêncio era o tio Arthur.


“Mas porque diabos ele voltou a morar com a vovó?” - pensava fora da conversa.


- Não há nada como a comida da mamãe, garoto – disse o tio como se invadisse seus pensamentos quebrando o silêncio.


- Não! - gritou de horror – Não pode ser!


A avó e a mãe não entenderam o espanto do garoto. Seus olhos estavam vidrados, o grito de horror era autêntico e veio do fundo de sua alma, havia pequenos espasmos por todo o seu corpo.


- Não pode ser!


- O que não pode ser? - perguntou a avó.


- Ele voltou a morar na mamãe porque Sally não sabia cozinhar?


- E porque mais seria? - disse o tio enquanto comia um prato de batata com algum molho.


Isso nunca faria sentido na cabeça do jovem David, um prato de comida jamais seria mais importante do que uma boa foda.

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